segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

À procura do sonho perdido

Pensei na aula que tive naquele dia, em como poderia ter dito melhor isso ou aquilo, nas coisas que eu não precisava ter dito, no vestido que eu quero comprar, em como estou sem dinheiro, nos trabalhos que eu gostaria de fazer. Pensei em tudo que tinha que fazer no dia seguinte. Pensei que poderia fazer sol para eu ir à praia.
Pensei na cena de um filme, na festa do final de semana, na viagem que eu vou fazer, no livro que eu estou lendo, nas minhas expectativas de vida, nos meus amigos, nos meus sonhos. Pensei no meu irmão que está longe. Lembrei das suas fotos do facebook. Pensei em temas para o blog. Imaginei-me em todos os lugares que eu gostaria de estar. Pensei em coisas proibidas, pensei em coisas erradas e como eu gostaria de pelo menos em pensamento cometer algumas dessas loucuras. Crio as cenas.
Panpanamericano Tantan tan tan... A música tinha ficado na minha cabeça.
Pensei que estava calor, levantei, liguei o ar condicionado. Depois pensei em uma pessoa que eu não gosto e como eu gostaria de dar uma lição de moral nela. Fica frio. Desligo o ar e deixo só o ventilador. Os travesseiros começam a incomodar, tiro um da cabeça e coloco no meio das pernas. Olho no celular. 4:37 da manhã. Eu tinha que acordar as 9. Só tinha menos de 4 horas para conseguir dormir. Angústia.
Coloquei a mão embaixo do meu peito para sentir o meu coração batendo. A pulsação estava rápida demais. Precisava relaxar. Deitei de barriga para cima e respirei fundo 5 vezes. Comecei a tentar relaxar os músculos que estavam tensos.
Panpanamericano Tantan tan tan...
Pensei em como eu faria aula de corpo sem ter conseguido dormir. Comecei a pensar em não pensar. Mas como pensar em não pensar é pensar não consegui.
Fome. Tinha comido pela última vez às 8 da noite. Com fome eu não conseguiria relaxar e dormir. Mas se eu levantasse para comer alguma coisa, meu corpo ia acordar ainda mais e ia ser mais difícil dormir. E ainda teria que escovar os dentes de novo. Preguiça.
Tentei não levantar para comer, mas não conseguia parar de pensar na fome que estava sentindo. Levantei e tomei um Nescau e comi cream cracker com polenguinho. Aliviou um pouco. Escovei os dentes e voltei para dormir.
Pensei em como era uma injustiça de Deus não me deixar dormir. Chorei de raiva. Agora só tinha mais 3 horas para conseguir dormir.
Piupiupiupiupiupiu. Os passarinhos lá fora começam a cantar. Raiva, muita raiva. Era o atestado de que estava amanhecendo e o meu tempo estava se esgotando.
Um passarinho fica mais perto da minha janela e pia em um intervalo de 4 segundos. Piupiupiupiu –silencio de 1,2,3,4 – pipiupiupiupiu – silencio de 1,2,3,4...
Quando ele piava uma vez eu contava os segundos esperando quando ele ia piar de novo. É uma contagem que eu não consegui não fazer. Dá tanta agonia quanto o barulhinho chato de uma torneira pingando no mesmo intervalo de tempo.
Viro para um lado, viro para o outro. Panpanamericano Tantan tan tan...
Calor. Liguei o ar de novo. Abafou um pouco o som do passarinho. A luz do sol atravessa as frestas da persiana. Puta que pariu! Eu preciso dormir!
Au au au au au au. Os cachorros da minha vizinha começam a latir, 5 pastores alemães. Imagino vários tipos de assassinato para fazer com estes cachorros. Botar veneno na ração, acertar com arco e flecha, jogar uma bomba...
Vozes, varias vozes. As pessoas na rua estão indo trabalhar. Que horas são? 7:30. Só tenho uma hora para dormir. Foda-se, não vou dormir mais. Calculo se terei tempo de dormir naquele dia pela tarde. Não, não teria.
Penso em como eu gostaria de ter facilidade para dormir e como eu odiava essas noites angustiantes.
Panpanamericano Tantan tan tan...
Piupiupiupiu –silencio de 1,2,3,4 – pipiupiupiupiu – silencio de 1,2,3,4...
Au au au au au au
Pipipipipipipipipi. O despertador toca, eu levanto olho no espelho e vejo um rosto acabado e com olheiras profundas.
Mais um dia com insônia. O quinto só essa semana.
Mais uma noite sem sonhos, só pensamentos.
Bom dia!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sobre a leitura

Queria atualizar o blog com algum texto novo. Não tive idéias.

Resolvi postar um trabalho que eu fiz para a faculdade. Ao contrário de muitos outros, este eu gostei de fazer. Se vc gosta de ler, acho que vai gostar dele.
Eu fingi gostar de ler mais do que gosto de verdade. Mas releve o exagero,é que professor gosta de aluno metido a intelectual...





Marcel Proust, em seu texto “Sobre a leitura”, reflete sobre o ato de ler. O que era para ser um simples prefácio, se transforma em um belo hino de amor à leitura.

Proust, quando descreve seus momentos de leitura na infância, nos transporta para o seu mundo particular de pensamentos e sensações, nos fazendo lembrar junto com ele dos nossos próprios delírios, do tempo em que estivemos enfeitiçados por algum livro.
A nossa perspectiva muda quando estamos lendo. O mundo ganha um sabor diferente, as imagens parecem querer nos dizer algo, as vozes que antes eram tão familiares agora parecem ter uma melodia nova, os cheiros se transformam em portadores de lembranças... Os detalhes da vida ficam mais vivos.

Na medida em que descreve os locais e as condições em que lia seu livro, Proust nos mostra que as lembranças daquela leitura são na verdade as lembranças do seu quarto, do almoço, que interrompia sua leitura, do vizinho, do cotidiano da sua casa, do sino da igreja, das flores do campo... Descreve como eram felizes os momentos de silêncio e solidão, quando ninguém aparecia para importunar sua leitura.

É um texto que consegue transformar em palavras o fluxo intenso de sensações que todos nós temos quando estamos mergulhados em alguma história. Uma bela introdução para um livro que vai exatamente refletir sobre a leitura.

Proust resume a principal idéia contida no livro “Trésors dês Rois” de Ruskin com palavras de Descartes: “a leitura de todos os bons livros é como uma conversação com as pessoas mais honestas dos séculos passados que foram seus autores.”

Ele diz que mesmo que sejamos suficientemente inteligentes para escolher bem as nossas amizades e que possamos travar conversas interessantíssimas com essas pessoas, mesmo assim, a experiência da leitura é superior. O ato de conversar está ligado ao que é externo, dissipando as idéias, enquanto que a leitura consegue a façanha de ser uma conversa com o outro sem sair do lugar reflexivo e de poder intelectual que só a solidão proporciona.

Sem contar que os autores dos livros são homens muito mais sábios e mais interessantes que aqueles que podemos ter a chance de conhecer à nossa volta. E eles estão ali, sempre a disposição, sem precisar que marquemos uma hora para o encontro.
Outra teoria, que de início parece até desanimadora, é a de que os livros têm por função apenas provocar incitações, desejos em nós leitores. Cada conclusão feita por seu autor assinala o ponto de partida da nossa própria reflexão e busca da verdade. Gostaríamos que eles nos dessem respostas, porém a nossa sabedoria só nasce quando termina a do autor.

“Este é o preço da leitura e esta é a sua insuficiência. É dar um papel muito grande ao que não é mais que uma iniciação para uma disciplina. A leitura está no limiar da vida espiritual; ela pode nela nos introduzir, mas não a constitui.”

A leitura tem o poder de recuperar aquelas almas que já não sabem mais o caminho da sua própria verdade e criatividade. Proust compara estes “doentes” com aqueles doentes da preguiça, que não tem vontade de fazer nada na vida e que precisam de um agente externo, um médico talvez, para que eles voltem a fazer suas atividades. A leitura serve como este agente externo que transporta a pessoa de novo para a sua própria individualidade, para a sua imaginação, para a sua complexidade, oferecendo de novo o caminho das pedras para que o leitor possa se encontrar com seus tesouros escondidos. É o estímulo de outro espírito, mas recebido no seio da solidão.

A leitura torna-se perigosa, no entanto, quando tende a substituir a vida pessoal do espírito. Seu papel é incitar o leitor a procurar a sua verdade particular e não ser esta verdade. A verdade não é concreta ou está escrita em algum lugar, esperando que nos a encontremos. Por isso a leitura eficiente é a ativa, em que o leitor também é autor. Limitar-se ao que está escrito e só, é subestimar o poder que o livro pode ter.

Bom, tendo terminado meu trabalho de Português(que fez o favor de importunar minha leitura), posso voltar ao livro que eu estava lendo e finalmente saber se Dorian Gray vai envelhecer ou ficar jovem para sempre.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Por um final feliz. Ou não.


Tem coisa mais irritante do que final de filme ruim??
Já estava quase dormindo quando vi começar no Telecine o filme "A Troca" com Angelina Jolie. Queria muito ver esse filme, então fiquei acordada e durante 2 horas fiquei segurando o sono. O filme é muito bom, se não fosse por um detalhe: ele não desvenda o principal mistério do filme.
Uma mulher tem o filho desaparecido. A polícia acha o garoto errado. A mãe fica desesperada com isso e vai a imprensa divulgar o erro da policia, que por sua vez a interna em um hospício para não ser obrigada a assumir o engano que cometeu. Eis que uma chacina de crianças é descoberta e aparece a informação de que o filho verdadeiro estaria entre os mortos. No final surge um sobrevivente da chacina que conta que o filho talvez tenha conseguido escapar.
Fim do filme. É do tipo que explica o que aconteceu depois com texto escrito.
Texto: "E ela nunca parou de procurar seu filho." FIM
Fim???

Como assim "Fim"????

O que aconteceu com o garoto???Ele morreu? Ele escapou? Ele nunca mais encontrou a mãe? Eles se encontram depois de anos? O que aconteceu!!?!?!?
Odeio filme que não subestima minha inteligência! Me subestime! Eu não sei o que aconteceu e não quero tirar minhas próprias conclusões!
Um filme é feito para contar uma história!! Então conte a história toda, por favor!

Já´pensou se "A Cinderela" terminasse com o príncipe com o sapatinho na mão na escadaria do palácio? " E ele nunca parou de procurar a dona do sapatinho." FIM

Nãoo!! Histórias completas por favor!!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Paradoxo

Eu estava ontem no metrô e saltei na estação de Ipanema, que acabou de ser inaugurada e é enorme.
Um garotinho de uns 4 anos brincava com o eco que a caverna proporcionava:
- Oieeee!!! Tem alguém aí?!?!Alouuu!! Tem alguém aí?!?!
E milhões de pessoas marchavam para seus afazeres cotidianos.
- Tem alguém aíii!?!?!?!?!
Silêncio. Ninguém responde.
É, não tinha ninguém ali.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carnaval do vale-carne


Na semana passada eu estava assistindo ao filme “Perfume”, adaptação para o cinema do romance do escritor alemão Patrick Süskind “O Perfume, Historia de um assassino”, que conta a história de um rapaz com o olfato apurado que não possuia cheiro próprio. No filme, o menino assassina mulheres virgens para extrair do corpo de cada uma, um aroma específico. Ele junta todas as essências corporais que conseguiu e constrói um perfume extraordinário.
Em uma cena em que esta prestes a ser condenado pelos assassinatos que cometeu, ele pinga em um lenço algumas gotas do perfume e deixa que o aroma se propague pela praça lotada de gente. Na medida que as pessoas vão sentindo aquele cheiro, elas se entregam a explícitos gestos de desejo e amor, sem pudor nenhum. A cena resulta em uma orgia generalizada que dura algum tempo. Depois que acordam daquele transe, as pessoas retornam à vida normal sem que ninguém comente nada. O constrangimento é generalizado.
Bom, o fato é que, além de achar a cena plasticamente muito bonita, ela me chama a atenção por mostrar o quanto é inerente ao ser-humano o desejo sexual ou o prazer carnal, que só não são livremente saciados e demonstrados por conta de uma “coisa” maior que tem por função controlar e educar tais instintos.
O perfume, no filme, funciona como um inibidor dessas leis deixando que os desejos e as vontades se expressem livremente. É devasso, libertador e belo.
Eu morei dez anos em Salvador, e pude viver de perto a manifestação tida como a maior festa popular do mundo: o carnaval. A própria etimologia da palavra que é a junção de “carne vale”, referência ao período da quaresma no calendário católico, acabou se tornando realmente um “vale carne”, só que aqui se tratando de outro tipo de carne...
É uma espécie de catarse coletiva, em que uma certa promiscuidade é permitida e não é vista com “maus olhos”. Como se todos estivesses sob o efeito do tal perfume do filme. E é curioso que, como no filme, quando o “efeito” passa, as pessoas evitam comentar sobre o que se passou, já que ali foi uma vivência particular que não pode ser julgada como seria na vida cotidiana. É a consciência coletiva deixada de lado, por um instante.
Como somos hipócritas e devassos ao mesmo tempo!Como somos juízes e réus!
Já que mudar o puritanismo é difícil, o negócio é aproveitar a cegueira da moralidade.
No carnaval, envolva-se, namore, dance, beije, apaixone-se, ame, ame de novo, e de novo...
Pra quem já tem o seu par o mesmo conselho vale. Intensifique, renove.
Os juízes estão de férias e o perfume é de graça!
Divirtam-se!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Doença é um must!

Todo mundo odiava a Camila de “Laços de Família”, foi só ela ficar com leucemia e raspar o cabelo que todo mundo passou a ter alguma simpatia por ela. Alguns até choraram na cena em que ela raspava o cabelo.

Agora é a Luciana, em “Viver a vida” que ficou tetraplégica. Pronto, virou a mocinha.

Sofrimento é uma coisa que dignifica, sofrimento traz humanidade, respeito. Gente famosa mesmo adora contar em entrevista como teve uma infância difícil, ou como penou para alcançar o reconhecimento. Mas se contar que teve uma doença ganha 10 pontos de vantagem, dá muita moral!

Bom, eu tive TUBERCULOSE ÓSSEA (é, eu também não sabia que existia...). E adoro contar que tive, ganho crédito com as pessoas. É raro, poucas pessoas tem. Sinto que sou importante. E fora que esse nome é lindo, “tuberculose óssea”. Não podia ter tido uma doença com nome melhor! Compare aí: “Gripe suína” versus “tuberculose óssea”. É outro requinte!

Tive no osso da bacia um buraco corroído pelo bacilo infeccioso. Tinha dores horrorosas, fazendo-me rolar pelo chão de desespero. Era uma dor que pulsava para o corpo todo, como se fosse uma dor de dente exagerada. Fui a vários médicos e nenhum conseguiu diagnosticar qualquer coisa. Passei a tomar relaxantes musculares exageradamente, de modo que fui parar no hospital porque meu estômago não estava mais agüentando tanto remédio.

Foi quando alguém indicou um ortopedista excelente. Um japonês aí. O tal japonês, especialista em tumores, analisando meus exames, disse:

- Isso tem toda a cara de tumor benigno, vamos ter que operar para extraí-lo. Você não poderá encostar o pé no chão durante 6 meses. Vai ter que usar muleta.

Marcou o dia da operação. Porém ainda não estávamos convencidos. Foi quando fui consultar um dos melhores médicos de São Paulo e tentar uma outra opinião.

- Operar?? Tá maluca?? Precisamos fazer uma biópsia para saber o que é antes de qualquer coisa.

Biópsia feita, o que não deixa de ser uma cirurgia, o resultado foi: Inflamação.

Japonês filho da p*

Mas ninguém sabia que inflamação era. Um terceiro médico então disse que existiam 4 opções, mas que a mais provável era de ser uma tuberculose.

- Toma o remédio de tuberculose, se parar de doer é porque era tuberculose mesmo...

Nesse lenga-lenga já iam alguns meses...

Nessa época estava em cartaz com o “Todo mundo tem problemas sexuais” em Salvador e a dor era tanta que eu acabava minha cena e ia para o camarim chorar. Não estava agüentando pisar no chão direito. O clímax do sofrimento.

Passei a usar muletas para só fazer o esforço de pisar no chão na hora da peça.

Sem muita opção, comecei o tratamento de tuberculose, tomando o remédio do posto de saúde. Bem, a dor foi passando. Era tuberculose afinal.

Doença de gente fraquinha, sem imunidade. Passei a tomar o Centrum do Luciano Huck junto com reposição de cálcio pra ficar fortinha.

6 meses de tratamento e fiquei curada.

Viu só?! Sou digna de respeito, de crédito! Eu sou vivida, sou madura, já passei por muita coisa nessa vida! Eu sofri.

Meu Deus! Eu dei muito mole!!!

Se o povo tivesse acompanhado meu drama, eu ia virar a namoradinha do Brasil!

Podia ter feito um reality show, um vídeo no youtube dividido em capítulos... Eu podia ter sido um episódio de minissérie de médico, um depoimento no final da novela das 8, eu podia ter criado um e-mail-corrente...

Mães de família iam se comover, eu ia receber doações em dinheiro, ia posar para a “Playboy” segurando uma muleta, ia participar do programa do Gugu, da “Fazenda”...

Não aproveitei.

Merda!!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

"2001"- Uma odisséia para entender...


Depois de muita insistência de meu pai, assisti à "2001". Durmi umas 4 vezes, demorei 2 dias pra ver inteiro, mas é um ícone né? É daqueles que tem que ver. Quando ele chegou no meio mais ou menos é que eu saquei qual é a do filme. Depois que acabou , fiquei um dia inteiro na internet procurando explicações , interpretações. Fiquei realmente encucada e admirada. Na faculdade surgiu a oportunidade de escrever sobre ele, então fiz esse texto, não tem graça, mas eu sempre quis postar alguma coisa sobre esse filme. Quem assistiu por favor dê pitaco.



É lento, arrastado, cansativo, as vezes chato e a maioria dos que assistem não conseguem o fazer sem dar uma cochiladinha entre uma sequência e outra. Porém com todos esses adjetivos, a ficção científica “2001 – Uma odisséia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick, consegue ser uma das maiores obras-primas da história do cinema. É lento porque é complexo, é cansativo porque exige cérebro, é chato porque seu tempo é outro, sem imediatismos. Com 139 minutos e apenas 40 de diálogo, “2001” mostra a evolução da raça humana desde seus antepassados, os macacos, até a era da tecnologia, o século XXI (inclusive, é o maior corte temporal da história do cinema, Kubrick sai da pré-história para este século em um instante).

Passados 40 anos do seu lançamento, o filme ainda é motivo de discussão porque é uma obra em que varias interpretações e reflexões são possíveis, de modo que por mais que algumas sejam muito plausíveis, nenhuma é certa. E não é para ser. É tudo uma provocação para a mente.

Outros trunfos atribuídos a obra são a trilha sonora e os efeitos especiais. Composta de músicas clássicas, a trilha cria uma atmosfera em que as naves parecem dançar no espaço. Sem computadores pra efeitos, Kubrick faz milagre ao conseguir reproduzir um espaço totalmente crível e belo.

Para tratar da evolução do homem, Kubrick retrocede à pré-história e mostra como tudo começou. Depois de um monólito ser colocado misteriosamente no meio de um bando de macacos, um deles, não se sabe se por sua curiosidade natural ou pelo monólito em si, descobre que um pedaço de osso pode ser uma ferramenta e um instrumento de dominação. A partir daí o mundo nunca mais será o mesmo e dá-se inicio a “evolução” (entre aspas mesmo).

Essa “evolução” faz o macaco transformar-se em homem e chegar até o século XXI, no momento máximo de sua inventividade tecnológica. É neste momento que os papéis começam a se inverter. Se computadores e máquinas foram criados para serem ferramentas do uso humano, agora estas máquinas são tão auto-suficientes e inteligentes que precisam dos humanos apenas como técnicos de manutenção, como ferramentas. Parece que voltaram à sua essência de macacos. E é aí que se dá o conflito do filme, a luta entre o homem e a máquina.

Esta máquina é o computador HAL 9000, que acaba fazendo o papel de bandido. Na "missão Júpiter" HAL é o controlador da nave espacial.Depois de identificar um erro de HAL, a tripulação resolve desligá-lo. Porém, o computador pensa que está vivo e não permite tal idéia. Nesta batalha, o homem acaba por vencer matando HAL com a mais simples das ferramentas: a chave de fenda. É engraçado perceber como o computador é humanizado, com direito a desejos e personalidade próprios, enquanto os membros da tripulação são reduzidos a animais irracionais, sendo tratados com desdém por HAL.

Agora o homem encontra-se sozinho no espaço com a morte se aproximando.

No final do filme, com uma sequência um tanto psicodélica, Kubrick coloca o homem de frente com a sua própria morte, da qual sua evolução tecnológica não o fez escapar. E então finaliza o filme de forma intrigante: sugere que o desprendimento do corpo físico liberta a alma para a imortalidade, fazendo com que este seja o ultimo passo na historia da evolução.

Bom, isso não deixa de ser um palpite, já que qualquer outra interpretação é possível. Essa luta homem-máquina existiu? Existirá? Existe? E os homens, deixarão de ter seu corpo físico no futuro? E o monólito? O que é afinal? Um Deus? Um ET? O controlador do universo? Muitas perguntas, poucas respostas. É, a graça é essa.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

RIO! ( Pra não chorar...)


Quanto tempo que não escrevo aqui! Fui pra Argentina, voltei pra Salvador já estou morando no Rio e não fiz nenhum comentário sobre qualquer coisa!
A Argentina foi um capítulo à parte que pretendo discorrer qualquer dia desses. Era para eu ter escrito logo quando voltei, mas com a confusão da mudança e outras coisas acabei deixando pra lá, mas teve foi história! Algumas dá pra contar aqui. Já outras...
Bom, como eu disse antes, estou morando no Rio, o lugar onde eu nasci e vivi até os 11 anos. Depois de 10 anos em Salvador, cá estou eu de volta. Apesar de ainda estar me adaptando aos lugares e às pessoas, estou gostando bastante. Acho que eu estava precisando mesmo dar uma mudada, respirar novos ares, sabe como é...
Primeira parada: Praia!
Praia de Ipanema, poxxto 9... Ah! Que delícia! Bixcoito Globo, Mate, Guaraplus, Guaraviton, açaí... Quanta gente bonita, sarada!
- Mônica, você deu uma engordadinha né? -Diz um amigo meu.
Pluft! Volto à realidade. Olho pra minha barriga, pra barriga de gomos do negão, minha barriga, gomos, minha barrig...
É verdade! Acabou Argentina, acabou férias. Tá na hora de emagrecer!
Segunda já fui eu pra academia fazer aquele negócio horrível que é a ‘avaliação física’.
Que coisa mais constrangedora! Aquele homem com aquela pinça enorme pegando nas nossas banhas...Aff!
- 6 quilos. É o que você precisa perder. - Decreta ele.
6 QUILOSS!!!!?? Eu que achava que perdendo um quilinho já estava de bom tamanho! Não, minha querida, o padrão de qualidade “poxxto 9” exige barrigas saradas! Aqui a barriguinha de cerveja pesa 6 quilos!
- Ô minha gordinha, fica assim não! Aproveita agora pra fazer propaganda de remédio de emagrecer. Você vai ser o “antes”! – Diz o meu pai quando chego em casa.
- Hahaha.. Muito engraçado...
Dia seguinte, vida nova! Queijo branco, pão integral e suquinho. Botei meu shortinho malhação e fui à academia.
Moro em uma rua movimentada de botafogo. Enquanto eu andava, vi alguns sinais de luz e ouvi vários assobios, buzinadas, “elogios” e gritinhos.
-Pô, mesmo gordinha to fazendo sucesso! – Pensei eu com meus botões.
E quanto mais eu andava, mais meu nariz empinava (se é possível...) e mais “desfiladamente” eu andava...
Quando uma senhora me pára e me segreda ao pé do ouvido:
- Moça, não sei se a senhora sabe, mas seu short está furado atrás, os homens estão...
- Ah sim... Obrigada, obrigada! – Cortei eu, sem querer ouvir o final da frase.
Entrei numa lojinha de esquina, olhei no espelho. Furo era apelido, aquilo ali era um rombo bem na costura do meio... Tava lá a calcinha amarela gritando e fazendo bem contraste com meu short vermelho. Peguei uma bermuda de algodão de 5 reais e coloquei por cima. Parecia um pijama. E lá fui eu com o rabo entre as pernas pra academia.
Foi quando atravessei a rua na frente de um entregador de pizza parado no sinal. Dispara ele:
- Nossa! Mas você é muito linda!!
É meus queridos, tenho que dizer pra vocês que até gordinha e de pijama eu fecho quarteirão.
Beijo grande.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

"Minha filha, cade minha minha mala?"

Como alguns de vocês devem saber, estou viajando para a Argentina e volto daqui a 1 mês. Ficarei com meu amigo Marcos que esta por lá e alguns amigos. Espero voltar com muitas idéias! Talvez relatar alguns micos por não falar espanhol, as aventuras numa terra desconhecida ou a emoção de ver neve... Sei lá, vamo ver que que vai ser.
Mas a vontade de postar aqui não foi nem pra dar essa satisfação e sim para relatar dois fatos curiosos que aconteceram comigo no aeroporto enquanto vinha fazer a escala no Rio:

Estou eu sentada perto do portão de embarque, quando senta do meu lado uma senhora muito aflita. Diz ela:

- Eles devolvem a mala logo?

- Se você tiver sorte...
Desculpe, o que?

- Eles devolvem logo? A mala? Eles pegaram lá na frente e até agora não devolveram!

Oooo gente!! Precisava ver cara penável dela...

-É a primeira vez que viaja de avião?

-É...

- Fica tranquila, quando chegar no Rio é que você pega de volta.

Se as franjas assassinas não engolirem a mala dela. Mas preferi não assustar.

Ela retruca:

- Rio? Mas eu não vou para o Rio!

- Não? Pra onde então você vai?

- Pra Manaus!Ai meu Deus!

- Ai meu Deus!
Calma, qual o portão de embarque?

- 5

O portão 5 já estava chamando o voo para Fortaleza. Calma, pode ter mudado. E tinha. Agora era o 8.

- Agora é o 8! Ás vezes eles mudam o portão...


Fui leva-la até o 8. Todo mundo já tinha entrado, menos ela. E então ela entrou, me agradecendo muito a ajuda;

- Avião é complicado né? Muito obrigada viu menina? Deus lhe pague!

Bom, para um 1º voo, deve ter sido bem emocionante. Imagine Dona Margarida entrando sozinha naquele corredor vazio, reservado só para o seu desfile. Todos os súditos sentados, com o olhar fixo nela, que desfila mais do que devia porque não consegue achar a poltrona 23 c...
Um momento meio Macabéa...

E a minha mala, no Rio, foi a 1ª a vir na esteira! Juro! QUase não acreditei!

E enquanto Dona Mrgarida entrava triunfante no avião para Manaus, atraindo todos os olhares daquela platéia já acomodada, eu saía da sala de desembarque, também triunfante atraindo os olhares daquela platéia incomodada.







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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Cara, cade minha mala?


Depois de uma longa viagem de avião, o que mais se quer é finalmente ir para casa e colocar os pés pra cima. Mas como tudo na vida, nada é exatamente como a gente quer. Além daquela demora toda pra sair da aeronave, ainda temos que ir resgatar a nossa querida e saudosa mala. A que guarda as provas da nossa viagem.

Resgatar sim, porque dói quando vemos aqueles brutamontes jogarem nossos pertences naqueles carrinhos como se fossem sacos de cimento. Vamos andando para aquelas esteiras com um certo medo. O que mais queremos é o reencontro. Será que ela sobreviveu àquela suruba, que deve ser um bagageiro de um avião? Será que ela foi esmagada por uma mala maior? Será que rasgaram, quebraram ou roubaram alguma coisa?Pior! Será que ela foi extraviada? Onde foi que eu errei? Oh Deus! Não bastava ser só viada...Tinha que ser extra! (Nossa, trocadilho podre...)

Vamos correndo pra esteira, tentar pegar um carrinho que não emperre e um lugar que tenha uma boa visão para a esteira. Quase consigo ver a felicidade de cada mala ao encontrar seu dono. Algumas vezes escuto de alguns passageiros ao abraçá-las: “Calma, passou, passou,to aqui”. É quase comovente esta relação viajante-mala. Não que o viajante seja uma mala, quer dizer alguns até são, alguns não, muitos, mas o que eu estou querendo dizer é.. Ah! você entendeu...

Está tudo muito bom, está tudo muito bem, até quando você dá uma olhada em volta e percebe que só tem você e mais uns 5 passageiros esperando por suas malas. Será que estou na esteira certa? É, estou.Começa a competição, vocês são os últimos dos moicanos, vamos ver quem vence a prova do líder. Qual será o primeiro finalista a ter sua mala de volta? Tensão. E a sua insiste em não passar pela esteira. Qual era mesmo a cor da fitinha do Senhor do Bonfim que você amarrou? Rosa-choque? Tem certeza? Tenho! Pra poder enxergar logo quando ela aparecer! Mas por que rosa-choque? Eu nem gosto tanto assim de rosa, laranja daria o mesmo efeito. Ai Deus!Pare de pensar besteira!Sua mala pode estar em perigo por trás daquelas franjas misteriosas no final da esteira. O que tem ali atrás? Aquilo ali é quase um universo paralelo. Tenho medo até de ficar perto... Vai que sou sugada também? Seus companheiros de combate estão vencendo. Agora só restam 3 dividindo esse sofrimento. No auge do stress, você pára e percebe que tem uma mala que está girando naquele negócio desde a hora que você chegou. Ela é de couro marrom , meio desgastada nas extremidades e parece cansada. E tonta.Ela gira, gira e ninguém a puxa para o seu carrinho. Um sentimento de ternura toma conta do seu ser e você passa pela tentação de puxá-la para o seu carrinho. Afinal vocês agora compartilham do mesmo sentimento de abandono, de solidão. Não existiria um orfanato de malas onde esta mala poderia ser levada? Você sente raiva de quem rejeitou aquela pobre mala, até que aparece um sujeito saindo do banheiro meio apressado e puxa a mala para si, tirando-a da mira da sua cobiça.

Suas memórias o transportam para o segundo ano primário, quando sua mãe foi a última a buscá-lo no 1º dia de aula. A raiva que sentia agora era a mesma. Por que sua mala o tinha abandonado assim? Não era justo! Não era justo!

Olha para o lado e vê que só sobraram você e um cara. Ele parece tão aflito quanto você. Ele percebe a sua presença e chega mais perto. Você fica meio tensa, mas tenta parecer simpática. Vocês agora conversam, conversam e conversam, não pensam mais na mala. Agora só o que interessa é a viagem que ele fez para A Grécia.

Você dispara:

-Sempre quis ir à Grécia, sabia?

Alguém te cutuca. É um funcionário da empresa aérea.

-Senhores, estas malas pertencem a vocês?

Quando olho para a esteira estão duas malas girando, parecendo brincar de carrossel, será que estavam brincando de esconde-esconde ate agora? Que bom que apareceram! E como se davam bem, que química! Seria um sinal?

As malas passam, cada um pega a sua e você finalmente diz, assim como quem não quer nada:

-Vou tomar um café rapidinho, se quiser vir também...

As malas ainda conversam entre si, devem ter feito amizade...

-Gostaria muito, mas não posso. Minha esposa me espera...Foi bom conversar com você. Tomara que um dia você possa conhecer a Grécia!Até mais!

E assim ele se vai. Uma coisa rosa-choque lhe chama a atenção na mala que ele puxa. É a sua fitinha do Senhor do Bonfim que ficou presa na mala dele!

Você olha para a sua mala e diz:

- Pelo menos uma de nós se deu bem hoje hein!?

A mala apenas sorri descaradamente.

A revolta que morreu na praia


Qual o objetivo principal de uma passeata, da Isabelita dos patins e de uma criança birrenta?

Chamar a atenção. Para si ou para alguma causa.

Concorda comigo que para ser notado, é preciso destoar, exagerar, chocar. Afinal que autoridade repensaria algum decreto com uma passeata de meia dúzia de gatos pingados? Que Barbie a criança birrenta ganharia se não envergonhasse a mãe no shopping? O que a Isabelita dos patins ganharia se não patinasse fantasiada pelas ruas do Rio de Janeiro? Bem, não sei direito o que ela ganha, mas pode estar certo que ela também não ganharia...

Nós, seres humanos, que vivemos em sociedade, sabemos que para conseguir certas coisas precisamos nos esforçar,apelar, agir diferente, para que o nosso alvo, seja ele o que for e quem for, nos perceba.

Esta semana, um fato me chamou a atenção. Dizia a noticia: “Cerca de 50 baleias e golfinhos morreram ao longo do litoral de Hamelin Bay, no sul da cidade australiana de Perth. Segundo o porta-voz do Departamento de Meio-Ambiente estadual, Greg Mair, 80 animais encalharam na região nesta segunda-feira.” (Fonte: Portal Terra)

Segundo a notícia, não se sabe ao certo o que teria causado este triste acontecimento. Li alguma coisa sobre sonares submarinos, recifes, mas nada muito detalhado...

Bom, eu tenho um palpite.

Além de nutrir simpatia por golfinhos e baleias e ter lamentado a morte destes, fui tomada por uma divagação: Será que esses mamíferos (considerados super-inteligentes, em especial os golfinhos) não teriam planejado este suicídio coletivo para chamar nossa atenção para toda a destruição do planeta?

Um golfinho revolucionário discursando num palanque:

-Não aguentamos mais essa situação!!Unemo-nos!!Temos que nos comunicar com os humanos de algum jeito!!Nossa tática de diálogo através de nossas cambalhotas e acrobacias não tem dado certo... Eles passaram a nos adorar por isso! O mar está mudado, toda a Terra está sofrendo!!Temos que reverter esse processo!!

Um sábio golfinho, estilo Mestre dos Magos, declara:

- Só há um jeito. Alguns de nós temos que nos sacrificar para que o mundo se salve. Só com a tragédia eles perceberão que algo está errado.

Desespero geral, confusão, mães-golfinhas chorando, até que um se levanta e corajosamente diz:

-Eu estou disposto a me sacrificar pelo bem de todos.

Espanto. Silêncio. Lentamente outro golfinho lá atrás se levanta e diz:

- Eu também me sacrifico.

A partir daí passa ser questão de honra participar do chamado. Vários ao mesmo tempo se levantam e o time dos heróis-suicidas se forma.

No dia do protesto toda a comunidade “golfinheira” migra para a Austrália e se despede dos heróis que estão prestes a morrer.

Considerando que os golfinhos tem um cérebro grande, sendo considerados por alguns os mamíferos mais inteligentes e que são capazes de se comunicar com o som, até a distância, a idéia de que a morte dos 50 golfinhos e baleias foi um protesto da comunidade submarina não me parece tão absurda assim.

É uma pena que ninguém tenha se tocado disso. Só ficaram preocupados em salvá-los.

A essa hora o golfinho-mestre-dos-magos está sendo crucificado em praça pública porque o apelo não funcionou, os humanos não ficaram chocados com o suicídio em massa a ponto de mudar alguma coisa.

É bom comerçarmos a dar atenção a esses sinais, todo dia acontece um. A natureza toda está se mobilizando. E nós insistimos em não ver.

E o golfinho-mestre-dos-magos, num sopro de esperança, suplica:

- Não desistam!!Lutem até o fim!! Precisamos nos salvar!!!Precisamos nos salvar!!!

E estas foram suas últimas palavras.